sábado, 29 de janeiro de 2011

está difícil


Eu tinha um amigo que era fanático por uma cantora. Sempre via ele comprando pôsteres, buscando informações, comprando CDs, baixando músicas, mas nunca entendia o que ele sentia, e me sentia estranha por causa disso. Era um sentimento que na minha vida nunca tinha existido, então não podia compreender tudo aquilo que ele falava, tudo aquilo que ele sentia. Até que conheci uma banda, que mudou tudo isso.
Fui num show deles, conhecendo apenas três músicas. Adorei tudo, e chegando em casa, baixei todas as músicas deles. Ouvindo todos os dias apenas essas músicas, já estava contaminada por um pouco daquele sentimento que eu não entendia. Nada perto do que ele é hoje em dia.
Os dias foram passando, e fui buscando conhecer um pouco mais sobre eles. Até que minha irmã chegou em casa com uma revista deles para mim. Pronto, quis comprar todas as revistas em que eles estavam ali, estampando a capa, dando entrevistas, tirando fotos. Criei redes sociais que não tinha, para ficar mais antenada sobre o que está acontecendo com eles. E o vício está até me fazendo mal.
Agora, que entendo o sentimento, não sei se desejaria novamente ter entendido.
É muito ruim saber que aquelas pessoas que você idolatra, que você faria qualquer coisa para ver, para ouvir, para tocar, não sabem da sua existência. O pior de tudo, é saber dessa realidade, saber que você não vai ver eles, que eles não vão te beijar, não vão te conhecer, não vão ter o sentimento por você assim como você tem por eles, e não conseguir deixar de amá-los, de desejá-los.
As pessoas que não gostam me julgam, dizem que estou exagerando, que a banda é ruim, que não acreditam que eu gosto dela. Mas fã é aquele que não se importa com a opinião dos outros, é aquele que segue em busca do seu sonho, não importando o que os outros pensam de você. Então para aqueles que me julgam por eu gostar, podem deixar de falar comigo, me achar ridícula, fazer o que quiser. Não me importo.
O vício aumenta a cada música, cada entrevista, cada programa. Está difícil de largar. Está difícil. Muito difícil.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

final feliz


Eu finalmente havia conseguido arrumar um emprego na minha área, depois de dois anos e meio procurando um. Eu havia sido uma aluna mediana, mas atualmente empregos não eram a coisa mais fácil de se conseguir. Estava ansiosa para começar logo, e esperava que tudo desse certo. Que chegasse na hora, que o meu chefe gostasse de mim e do meu desempenho.
O que aconteceu, infelizmente, foi o contrário. Pra começar, eu acordei vinte minutos atrasada, e por isso tive que ir tomando café-da-manhã no caminho, assim teria tempo pelo menos de me arrumar, afinal, a primeira impressão é a que fica. Vesti minha melhor roupa, mas a chuva lá fora me deixou enxarcada e meu penteado desarrumado. A minha sorte é que tinha um táxi parado no sinal, em frente a mim. Abri a porta, sentei, e disse ao motorista o endereço. O homem olhou para mim, e não se moveu.
-Moço, rápido, eu estou com pressa. Muita pressa. - Repeti o endereço, mas ele não andava. Só o que ele fazia era olhar com os olhos espantados para mim.
Foi ai que me dei conta de que o carro não tinha taxímetro, ou seja, eu havia entrado em um carro amarelo, mas que não era um táxi. Com razão o moço havia perdido a fala e estava assustado. Saí do carro, e pedi desculpas.
Eu já estava atrasada, ainda tinha que conseguir chamar um táxi, minha roupa toda molhada, o cabelo bagunçado e um café na mão.
Ao chegar no escritório, uma mulher bem vestida pediu que eu a acompanhasse. Levou-me até uma sala, que parecia ser a do meu chefe.
- Ele já vem - disse ela, me deixando ali sozinha.
Começei a mexer em alguns porta-retratos que tinham ali, quando ele entrou.
-Lesly é seu nome, certo?
-Não, é Linda.
-Muito engraçada. Bom, Lesly, aqui em nossa empresa não permitimos atrasos, muito menos no primeiro dia. Não preciso nem dizer que está demitida né? Quer dizer, existe uma palavra que defina demitir alguém que não contratou ainda?
Ele saiu da sala, rindo como se tivesse feito uma piada das mais engraçadas. Sai da sala arrasada. Desci, e entrei em uma padaria para tomar algo, afinal, com toda a correria eu não tinha conseguido tomar um bom café-da-manhã.
Ao meu lado, no balcão, sentou um homem que falava ao celular.
-Eu sei, eu estou procurando alguém para o cargo, mas está difícil encontrar alguém com competência.
Quando ele desligou, virou para mim e ficou me encarando. É, de fato eu estava parecendo uma maluca. Cabelo em pé, molhada, com olheiras.
-Dia ruim?
-Péssimo. E o seu?
-Também. Não consigo arrumar alguém para trabalhar no escritório do meu chefe.
Converamos durante um tempo, e no dia seguinte eu teria novamente um primeiro dia, mas dessa vez, eu coloquei o alarme para duas horas antes, guarda-chuva perto da porta e deixei um táxi marcado.
É, o segundo primeiro dia teve um final feliz. E não só pra mim.

a menina da maquiagem


Eu não acreditei quando vi o nome dos participantes selecionados. Eu sempre tive o desejo de participar de um reality show, e apareceu a oportunidade de participar desse, que não era bem o meu ideal, mas eu iria tentar. E ali estava o meu nome, entre os 12 nomes de todos os selecionados. No meio do país inteiro, eu fui escolhida. Ok, eu teria que provar minha resistência, força, comer coisas nojentas, passar por diversas provas, mas eu iria encarar.
Entramos na casa, e no primeiro dia, todos estavam amigos, se divertindo, e comemorando, o que não se manteve ao longo do programa.
Eu sempre fui muito vaidosa, me importo com as roupas que uso, e gosto de usar maquiagem. Ali não seria diferente. Não é porque seria um programa mais radical, que não iria me cuidar e me importar com minha beleza. A prova podia ser na piscina ou de escalada, que eu passava minha maquiagem. Isso fez com que as pessoas passassem a não acreditar no meu potencial. Eles me encaravam como uma menina mimada, que havia caido ali de para-quedas, que estava no lugar errado.
"Eu sou forte e eu não quero ser nada além de mim. Eu posso parecer frágil por fora, mas por dentro eu não sou." Era isso que eu pensava nos momentos de fraqueza, afinal, viver numa casa com pessoas onde nenhuma acredita em seu potencial traz um pouco de vontade de desistir, um desânimo. Mas eu não deixaria isso me abalar. Era um sonho meu que eu estava realizando, eu não devia satisfação pra ninguém. Esse era meu jeito, e eu era uma concorrente mais forte do que muitos ali dentro.
As semanas foram passando, e meu desempenho era sempre um dos melhores. Os outros participantes não acreditavam quando eu ficava em primeiro, e por isso ganhava imunidade. Não acreditavam quando disputavam comigo e perdiam. Mas, como eu havia dito, era para eles terem cuidado comigo.
É, ninguém me escutou, não se preocuparam comigo, e eu, na minha, fui conquistando meu espaço. Cada vez com mais garra, mais vontade e mais confiança, consegui superar todos os meus limites. Não venci, fiquei em segundo, resultado que impressionou muita gente. Mas para mim, eu sou a maior vencedora.
(50ª edição musical - Projeto Bloínquês - 4° lugar)

para meu melhor amigo

Estou lhe escrevendo no meu anivesário de 12 anos, porque bateu uma saudade imensa de você. Eu lembro que nunca fui de ter muitos amigos na escola, nem no prédio. Mas eu tinha você, sempre. Era pra você que eu contava tudo da minha vida. Se estava triste, queria ficar com você. Se estava feliz, também. Eu amava, quer dizer, eu amo muito você. Eu me lembro que todo mundo me encarava quando eu conversava com você em público. Não sei, parece que eles não estavam te vendo. Acho que só quem podia te ver era quem te amava, ou seja, apenas eu.
Eu não te disse isso, porque fiquei com medo que você ficasse triste, mas uma vez escutei a mamãe conversando com
umas amigas e elas diziam que eu era louco, que eu tinha um amigo imáginario, que eu tinha que ir num psicólogo. Elas diziam que você era coisa da minha cabeça, mas não é, certo?
Até hoje, um ano após você ter partido, eu não entendo porque você se foi. Eu lembro direitinho do dia da sua partida. Mamãe chegou no quarto, e disse que eu estava ficando mais velho, que você teria que ser amigo de outras pessoas, e que você havia viajado a procura de alguém tão legal quanto eu. Eu chorei muito, e não quis sair do quarto até o dia seguinte. Não comi também. Eu cresci, e entendo que você tenha que ser o melhor amigo de outra pessoa, assim como foi meu. Outras pessoas merecem ter você ao lado delas, assim como eu tive.
Só queria escrever isso pra você, para dizer que estou com saudades de você, das nossas brincadeiras, das nossas conversas. Eu te amo muito, e quando a mamãe te entregar essa carta, que ela disse que vai te entregar ainda hoje, vê se lê logo e me mande uma resposta.
Beijao, Billy.

(25ª edição cartas: amigo imaginário - Projeto Bloinquês - 2º lugar :Nota: 10 – 10 – 9,9 =9,96)

rápida mudança


Eu sempre fui muito rica. Desde que nasci, vivia no meio de gente rica, e só sabia viver assim. Costumava frequentar os restaurantes mais caros da cidade, mesmo que não fossem tão bons quanto as carroçinhas de cachorro-quente que ficavam nas ruas. Comprava apenas em lojas de grife. Toda semana fazia compras. Dava as melhores festas do bairro, com as melhores bebidas e comidas. Enfim; eu estava acostumada a viver no luxo. Meus pais moravam na Inglaterra, e sempre me mandavam dinheiro pelo correio. Ou seja, eu morava sozinha, e tinha toda aquela fortuna para gastar. Aconteceu que um dia, recebi uma carta do advogado deles, que dizia que meus pais haviam falecido em um tragico incêndio, e que toda aquela fortuna havia se perdido com as chamas que haviam matado meus pais, a única família que eu tinha. Naquele momento, eu nem me importei em não ter mais eles, afinal, eu não os tinha ao meu lado. Eu fiquei preocupada foi com o dinheiro. O que eu faria sem ele? Eu não tinha emprego, e não iria estudar. Não mesmo. Para me sustentar, eu teria que vender minha casa? Meu carro? Eu não ia poder frequentar os lugares que antes eu ia? O que seria de mim agora, sem o dinheiro? As pessoas não podiam saber disso. Isso eu não deixaria de jeito nenhum. Eu teria que providenciar um novo apartamento, menor, e menos luxuoso, mas como faria isso sem que as pessoas percebessem que eu estava de mudança? Resolvi então gastar o pocuo dinheiro que havia me restado, e comprei papéis de embrulho. Rosa, lógico. Com os papéis, embrulhei todos os meus pertences, e assim as pessoas achariam que eu estava fazendo compras, que havia chegado de viagem, ou algo do gênero. Nunca imaginariam que ali, naqueles embrulhos estavam minhas roupas, meus perfumes, meus sapatos, e que eu estava me mudando. Ninguém imaginaria o que havia acontecido comigo. E o plano deu certo. Por onde eu passava, as pessoas olhavam para mim, com aquele olhar de inveja. De curiosidade, de desejo. Cheguei no meu novo apartamento, e pedi que o porteiro me ajudasse.
-Madame, quanto presente! - ele disse. Dei-lhe um sorriso falso, e subi.
Ele levou tudo lá pra cima, e as coisas mal couberam dentro da minha nova casa.
Quando finalmente eu pude deitar e descansar, começei a refletir sobre tudo isso. Estava arrasada. Aquela cama não era a minha cama. Eu queria minha vida de volta.
Demorei muito tempo para consgeuir levantar da cama e sair na rua. Parecia que todos iriam me olhar, e perceber que eu não era mais aquela menina rica de antes. Eu sentia que meus amigos não iam mais querer sair comigo, não iam mais estar do meu lado. Peguei o telefone, e liguei para Nina, minha melhor amiga.
-Nina, então, quer vir aqui em casa hoje?
-Claro, que horas amiga?
-Agora... Mas escuta, eu me mudei. Meus pais morreram e perderam toda a fortuna num incêndio, então eu estou em um apartamento menorzinho.
-Hm, amiga, acabei de lembrar que eu tenho manicure hoje. Amanhã nos falamos.
É, acho que eu estava certa. Mas aquilo ali me tocou muito. Será que eu não tinha amigos de verdade? Será que as pessoas só falavam comigo para usufruir do que eu tinha? Liguei para Rob, meu namorado. Ele foi o mesmo de sempre, mesmo depois de eu ter lhe contado tudo. Dez minutos depois, ele estava ali, tocando a campainha da minha nova casa. Abraçou-me e disse que me amava. Que não amava meu dinheiro, e sim a pes
soa que eu era.
Eu demorei mais um tempo para aceitar toda aquela nova vida. Passei um ano sem trabalhar, mas saia pela cidade, para ver rostos novos, pegar ar fresco. Quando o dinheiro da casa começou a acabar, procurei um emprego, e começei a trabalhar, coisa que nunca imaginei que eu teria que fazer. Fiz uns amigos no trabalho, e então me matriculei em uma faculdade. Eu estava recomeçando a minha vida, de uma maneira bem melhor, onde os valores eram totalmente diferente.

(50ª edição visual - Projeto Bloínquês - 2° Lugar: Nota: 9.6)

mãe?


Mamãe sempre foi uma executiva muito ocupada. A sua rotina era a mesma, desde que eu me lembro. Ela acordava, tomava uma xícara de café enquanto lia o jornal, se arrumava com seus terninhos, prendia um coque na cabeça, e ia trabalhar. Só voltava tarde, quando eu já estava indo dormir. Eu a admirava muito. Dizia que quando eu fosse maior, ia querer ser que nem ela. Quando ela não estava em casa, ia no seu quarto, pegava algumas roupas, alguns sapatos e ficava brincando de executiva. Se bem que eu não sabia muito bem o que era ser, de fato uma. Eu ficava apenas dando ordens para leo e jonh, meus bichinhos de pelúcia. Às vezes dava ordem para minhas barbies também. A questão é que conforme eu ia crescendo, menos minha mãe ficava presente em minha vida. E aquela graça, de ver minha mãe saindo cedo todas as manhãs e voltando tarde todas as noites, estava se perdendo. Eu estava sentindo falta dela. De uma mãe. De alguém para contar sobre meus romances. Sobre minha primeira menstruação. Sobre tpm. De uma mãe para fazer compras comigo, me levar ao salão de beleza. De uma mãe presente, coisa que toda menina precisa, principalmente na adolescência. O tempo foi passando, e eu tive, finalmente coragem de ir falar com ela. Tentar resolver tudo. Entrei em seu quarto, numa noite em que ela havia chegado mais cedo. Achei que estaria vendo televisão, ou descansando. Mas não. Estava ela, no computador e no telefone, trabalhando. Quase desisti, mas veio em minha mente o dia em que eu dei meu primeiro beijo, e quando fui contar para ela, ela pouco se importou, já que estava fazendo relatórios e dando telefonemas. -Mãe, eu queria conversar com você. Será que dá pra ser agora? -Um minutinho filha, estou trabalhando. Sentei em sua cama, e dali só sairia depois de desabafar tudo. -Sabe mãe, quando eu era menor, eu adorava ver você nessas roupas, trabalhando muito. Até queria ser igual. Mas eu cresci, e preciso de uma mãe. Disse tudo que estava preso dentro de mim. Até que reparei que ela estava olhando para mim. Será que eu havia conseguido, finalmente, sua atenção? -Eu te amo mãe, e preciso de você. - eu disse, e sai do quarto. Segui para a sala, e liguei a televisão. Será que ela iria mudar? Será que finalmente iria perceber que tinha uma filha? Algumas lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto, e de repente, ela apareceu ali.
-Eu não esperava te ver aqui tão cedo. Quer conversar, mãe? - disse eu, limpando as lágrimas, e estampando um sorriso imenso em meu rosto.
-Margarett! Você viu onde deixei minha bolsa? Não estou a encontrando e preciso dela agora.- ela berrou. Margarett era a moça que trabalhava lá em casa.
Margarett chegou correndo na sala, com a bolsa de minha mãe nas mãos. Ambas deixaram o cômodo, sem nem falar uma palavra comigo. Elas me deixaram ali, sozinha, decepcionada.
É, acho que minha mãe não escutou uma única palavra que eu disse. Acho que terei que me contentar em contar sobre meus problemas amorosos para o meu pai, que pelo menos se interessa em me escutar.

(48ª edição conto/história - Projeto Bloínquês - 4° lugar)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

para você

Sabe, eu amo muito você e você já disse que além de amizade não vê nada em mim. Mas isso não me traz raiva. Muito pelo contrário. Eu amo você, e esse sentimento nunca mudará. É por isso que eu desejo que nesse novo ano que está vindo, você seja feliz, mesmo que não ao meu lado. Além de saúde, paz, amor, alegrias, felicidade, coisas que todos sempre desejam, eu queria te desejar outras coisas. Queria que você corresse atrás dos seus sonhos. Nunca deixe que o medo de perder te impeça de jogar. Eu lembro de quando você queria demais ir numa festa. Ia ser a festa do ano. E por medo de receber um não, você não pediu para seus pais. Depois descobriu que aquela festa havia sido tudo que você julga como a festa perfeita. Ok, isso é uma coisa fútil, mas quero te mostrar que ás vezes o medo nos impede de fazer algo que realmente queremos. Sabe, além disso eu desejo que você lute e alcançe todos os seus objetivos. Bons resultados no vestibular, que o seu intercâmbio seja tudo que você espera, mesmo que eu vá ficar aqui, seis meses longe de você. Eu quero que você lute pela sua felicidade. Por fim, eu desejo, e isso é do fundo do meu coração, que você encontre alguém que ame, e assim possa dar a ela tudo que um dia eu sonhei receber de você. Espero que ela te dê tudo que eu ofereci pra você, mas você não quis. Eu quero que esse ano novo, seja inesquecível para você, porque você merece. É a pessoa mais incrível que eu conheço. Resumindo, eu quero que você seja feliz. Ao meu lado ou não.

(24ª edição cartas - Projeto Bloínquês - 2ºlugar - nota:9,83)

o tempo passa


E mais um natal se passou. Mas esse foi diferente. Eu fiquei ali, como em todas as outras noites especiais, na janela, a espera do bom velhinho, e ele sempre aparecia. Feliz, barbudo, com um saco de presentes. "Você foi uma boa menina esse ano?", me perguntava ele. Eu acenava com a cabeça. Um bigode de chocolate quente, um sorriso no rosto e um brilho indescritível nos olhos. Ele sorria também e sempre me entregava o que eu queria. O presente era especial, claro, mas a noite estava completava depois que eu o via. Depois que ele aparecia em minha janela. Mas naquela noite foi diferente. O bom velhinho não apareceu. Eu fiquei ali, sentada, esperando, mas ele não veio. O presente chegou, mas não foi ele que me deu. Não teve aquela pergunta de sempre. A noite sem ele não seria como as outras. Não seria uma noite de natal.
Acho que eu cresci e esqueceram de me avisar que o bom velhinho não existe.

fui promovida


E então, os fogos de artifício anunciam que o ano novo está presente. Sentados ali, vendo aquele lindo espetáculo de luzes coloridas, que iluminamvam não só a minha última noite do ano, mas a primeira de um ano novo. Estávamos ali, sentados, nós dois, juntos. Tínhamos o costume de se beijar quando o relógio marcasse meia noite, e assim estivesse anunciando um novo ano. Ocorreu assim durante os três reveillons que passamos juntos, e ocorreria nesse também, mesmo sendo o nosso último. A gente se amava, e tínhamos diversos planos. Casar, morar juntos, construir uma família. Mas a vida exige que a gente siga caminhos diferentes. É inevitável. Por mais que eu o amasse mais que tudo nessa vida, eu não podia desperdiçar a oportunidade de jogar vôlei na Itália. Era algo irrecusável, assim como ele não podia desperdiçar a oportunidade de iniciar a carreira de fotógrafo pela qual ele tanto havia estudado e se dedicado. Ele insistia em ir comigo, mas tudo que ele havia conquistado estava aqui. Não podia ser egoísta. Principalmente com ele.

Resolvemos então que passaríamos o dia da virada juntos, e essa seria nossa despedida. A gente ia continuar namorando, mas com certeza não seria a mesma coisa. Eu tinha medo de que não desse certo. Tinha medo que ele encontrasse outra menina aqui, que se apaixonasse. Tinha muitos medos, mas já havíamos chorado, conversado, e tudo já estava decidido.

- Vamos esperar que seja um bom ano - ele disse ao meu ouvido, quando os fogos ocuparam todo o céu. Nos beijamos. E que beijo era aquele. Eu ficava louca. Era algo agressivo e carinhoso ao mesmo tempo. Suas mãos ao redor do meu cabelo e seus lábios encostando aos meus. Que momento mágico. Com certeza eu levaria aquele dia na memória, para o resto da minha vida. Apesar de estar feliz ali, naquela hora, o aperto no coração ia aumentando. Eu sabia que em poucas horas a gente teria que se despedir. Esperava eu que fosse um até logo, e não um adeus.

No primeiro dia do ano, estava eu, no aeroporto, quase desistindo de tudo. Eu não queria deixar ele pra trás. Ele havia sido a melhor coisa que acontecera em minha vida. Eu o amava de uma forma que nunca havia amado ninguém antes.

- Vôo 157, última chamada.

Era o meu. Nos abraçamos, e pedi que ele me esperasse.

-Com certeza. Eu estarei aqui, todo pra você. Eu te amo. Mande notícias.
E demos nosso último beijo antes de minha partida. Entrei no avião, tomei cinco comprimidos para dormir. Se eu estivesse acordada ao longo do vôo, pensaria nele, e choraria. Eu estava indo em busca do meu sonho, no futuro ficaríamos juntos. Não queria mais chorar.

Quando cheguei no aeroporto de Roma, vi ele. De costas, me esperando. Sai correndo, com lágrimas nos olhos. Era ele. Ele veio me buscar, ficar comigo. Não aguentou de saudades. Viveríamos aqui, juntos. Melhor surpresa impossível. Abracei ele com toda a minha força, e quando ele se virou... Não era ele. Pedi desculpas, e nem tive tempo de ficar com vergonha. A dor em meu peito era maior do que tudo naquele momento. Eu estava louca. Via ele em cada pessoa que passava por mim.

Segui para o hotel, e o time estava todo lá. Eu ainda estava sob o efeito dos comprimidos, e por isso pouco prestei atenção na apresentação que o técnico estava fazendo.

Os dias passaram, nos falávamos por cartas, emails, telefone. Mas não era igual. E eu sabia que não seria.

Começamos a treinar. Aqueles momentos dentro da quadra eram os únicos em que eu conseguia me concentrar em outra coisa. O campeonato começou, e fui levando a vida. Nosso contato foi diminuindo a cada dia, afinal, ambos estávamos muito ocupados.

O ano estava melhorando. Fui conhecendo gente nova, e estávamos indo muito bem no campeonato. Havia conquistado a vaga de titular no time, e tudo estava se encaixando, quando recebi um email dele, dizendo que queria terminar tudo. Ele se lamentava, mas dizia que era para o nosso bem. Nossas vidas estavam sendo formadas em outros lugares. Estavam seguindo caminhos diferentes. Não podíamos nos prender a alguém, que não sabíamos quando veríamos novamente, ele dizia. E ele estava certo. Por mais que não quisesse acreditar naquilo tudo, ele estava certo. Terminamos.

É, como ele havia me dito em minha despedida, o ano não estava de todo ruim. Nós havíamos optado por seguir e lutar pelo nosso sonho profissional, e nós dois estávamos alcançando nossos objetivos. Não um ao lado do outro, mas estávamos conseguindo. É, a vida é assim mesmo. E agora eu entendia o famoso ditado que todos me diziam: quando sua vida social estiver uma fumaça é porque será promovido.

(47ª edição conto/história : 3º lugar - nota 9,05, 49ª edição visual e 49ª edição musical: 6º lugar - Nota 9,5- Projeto Bloínquês)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

noite especial


Havia me casado fazia três anos, e sempre eu e minha maravilhosa esposa fazíamos planos para termos filhos. Queríamos três. Todo esse sonho foi por água abaixo quando eu sofri um acidente de carro. Depois daquele dia, eu passaria o resto da minha vida sentado naquela cadeira de rodas. A minha mulher, incrível como sempre, permaneceu ao meu lado, mesmo que agora nossa vida estivesse limitada. É, de fato nossos sonhos tinham sido derrotados.
Até que o natal estava se aproximando, e então eu tive a ideia de lhe dar um presente, acho que talvez o mais inesquecível, e com certeza o mais valioso de todos. Inscrevi-me na lista de adoção, e pedi para que fosse uma menina, já que este era o desejo dela. Tive a feliz notícia, na véspera de natal, que eu havia conseguido. Cheguei em casa, no dia da ceia, com uma criança na mão.

- Quem é essa menina linda? - pergunto
u ela, com uma lágrima escorrendo pela sua face de porcelana. Com certeza eram lágrimas de tristeza. Tristeza por eu não conseguir dar a ela o que ela sempre quis. Mas ela estava enganada, e estava prestes a tornar aquelas lágrimas de tristeza, em lágrimas de alegria.
- É a nossa filha. Mery.

Eu estava certo. Ela se ajoelhou ao meu lado, e me abraçou. Pegou Mery no colo, e a abraçou. Forte e carinhosamente.

- Nossa filha... - ela disse, com o sorriso pelo qual eu havia me apaixonado em seu rosto.
Após aquela especial noite, começamos a comemorar todo o natal em casa, nós três juntos. Havia se tornado tradição enfeitar a casa, e colocar no centro da sala uma bela e imensa árvore de natal, que simbolizava aquele dia tão especial, em que a nossa família estava apenas começando a se formar.

(9ª edição roteiro - Projeto Bloínquês - 1º lugar: nota 9,83)

o dia


Desde pequena eu sonhava com o dia do meu casamento. Imaginava a minha entrada, com o vestido dos sonhos, jóias lindas e meu cabelo maravilhoso. O buquê seria com rosas brancas, as minhas favoritas. Todos os meus amigos, a minha família e a família dele estariam ali, nos olhando, se emocionando, se encantando. Ele seria o amor da minha vida, o pai dos meus filhos, o avô dos meus netos. Ele seria o homem com o qual e sempre havia sonhado. E esse dia finalmente chegou. Eu estava lá, na limousine, seguindo para o casamento. Antes daquele momento, eu havia passado horas no salão. Fiz o cabelo, pintei as unhas, fiquei na banheira. Fiz massagem e hidratação. Tive o dia de princesa, quer dizer, o dia de noiva, que não deixa de ser como o de uma princesa. O nervosismo aumentava a cada hora que passava. E finalmente aquele momento tinha chegado. A limousine chegou em frente ao salão, mas eu não consegui deixá-la. O motorista abriu a porta e eu permaneci ali dentro. Será que eu estava fazendo a coisa certa? Será que estávamos nos precipitando? Meu pai deixou o carro, e estendeu-me sua mão, para me tirar dali. Após um instante, segurei-a firme, e levantei, ainda indecisa, preocupada, com medo. Ele disse-me: "Tudo vai dar certo", e beijou minha testa.
Quando a porta do salão se abriu, eu vi todos me olhando. Inclusive ele, e ao ver aquele sorriso em seu rosto, eu tive certeza de que estava fazendo a coisa certa.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

ansiedade


Finalmente eu ia fazer os meus tão sonhados dezoito anos. Estava contando os dias para que meu aniversário chegasse. Presentes, festa, comemorações. Todo ano meus pais acordavam-me cantando parabéns e carregando ou uma cesta de café-da-manhã, ou um bolo escrito parabéns. Depois de acordar assim, almoçava com a família e jantava com os amigos. Ou ao contrário. Não importava. O que importava era ter as pessoas que amo perto de mim no dia mais especial do ano. O de dezoito seria mais especial ainda, afinal, todos dizem que é a melhor idade. Mas nesse ano foi diferente.
Acordei e desci para o quarto dos meus pais. Eles não estavam em casa. Nem eles, nem meus irmão. Imaginei que eles haviam saido para comprar um bolo, mas depois três horas de espera, sentada sozinha na cozinha, eles chegaram. Sem nada nas mãos.

-Ah, filha, fomos até a casa da sua avó. Você estava dormindo, preferi não acordá-la. Bom dia!
Foi só isso que minha mãe disse. Meus irmãos e meus pais também passaram direto por mim. Não podia ser. Eles estavam agindo como se aquele dia fosse um dia qualquer, e não era.
Subi e me tranquei no quarto. Não queria ver ninguém. Não havia recebido nenhuma ligação. Nem da minha família, nem dos meus amigos. Como as pessoas que eu mais amava haviam esquecido dessa data tão especial, pelo menos para mim?
Resolvi não ficar trancada em casa. Não no dia do meu aniversário. Segui até a minha lanchonete favorita, e pedi um chocolate quente com chantilly.

-Por favor, a senhora poderia colocar uma vela sobre isso? - perguntei à garçonete. Ela colocou, e trouxe novamente a minha mesa. Cantei parabéns baixinho. Estava com vergonha. Triste. Desapontada. Apaguei as velas e pedi apenas uma coisa. Que isso tudo aquilo fosse um pesadelo. Mas meu pedido não se realizou. Cheguei em casa, e estavam todos realizando suas tarefas. Meus irmãos estudando, mamãe fazendo o almoço e papai mandava uns emails. Subi para o quarto e dormi. Não queria ver ninguém. Queria que aquele dia passasse logo. O dia que eu aguardei durante tanto tempo acabou sendo o pior dia da minha vida.

No dia seguinte acordei com todos eles ao meu redor. Uma cesta de café igual eu nunca tinha visto antes. Um bolo enorme e lindo. Balões e presentes. Eu não estava entendendo nada. O meu aniversário já tinha passado. Hoje já era dia 17 de fevereiro, e não 16. Recebi tudo aquilo com alegria, porém estava muito confusa. Pedi, depois dos parabéns, que me deixassem sozinha por um segundo. Corri até o calendário, para ver se eu estava pirando.
É, acho que a minha ansiedade era tanta que eu acabei marcando o meu próprio aniversário no dia errado. Era, de fato dia 16 de fevereiro. Naquele dia sim eu completava os meus dezoito anos.

domingo, 19 de dezembro de 2010

o homem da minha vida


Ser teimosa às vezes é ruim. Mas nem sempre.
Eu tinha dezesseis anos quando estava na praia com minha família, e o mar estava meio agitado. As ondas eram grandes, estava com correnteza. Nada propício para um mergulho que passasse da borda. Mas eu só gostava de ir à praia para mergulhar. Não gostava de ficar naquele calor, na areia. Ao me ver levantando e indo em direção ao mar, mamãe disse para eu voltar e sentar. Disse que estava perigoso, que até os salva-vidas estavam dizendo que era melhor não entrar no mar. Mas, como sempre, eu fui teimosa, e continuei meu caminho.
Assim que a água tocou meus pés, tive vontade de virar-me e chamar a todos. A água estava maravilhosa. Combinando com aquele clima de verão. Nada seria mais gostoso do que dar um mergulho naquele mar. Nada. E era isso que eu pensava, até chegar no fundo, onde não conseguia mais alcançar o fundo com meus pés. As ondas, de fato estavam maiores do que o normal, e a água me levava para longe, mas nada que uma boa natação não resolvesse. Resolvi então fechar os olhos e boiar. Péssima ideia.
Acordei na areia, sendo socorrida por um salva-vidas que apertava meu peito. Abri os olhos devagar, e minha família estava toda ao meu redor. Quando acordei, só o que consegui escutar foram berros. Acho que era minha mãe comemorando que eu não havia morrido. O homem que salvou minha vida pediu então que as pessoas se afastassem e aos poucos me ajudou a levantar. Acho que ele era médico, afinal, tinha umas mãos delicadas, que haviam evitado a minha morte. Deu-me seu telefone, e disse que qualquer coisa eu podia ligar. É, eu estava certa, ele era médico.

Depois daquele dia minha mãe pediu que eu não saisse de casa até que estivesse totalmente curada. Já que não podia sair de casa e não tinha muito o que fazer, liguei algumas vezes para ele, para agradecer, e acabou que ficamos amigos, e mais tarde ele convidou-me para ir ao seu escritório, para verificar como estava minha saúde. A consulta foi estendida até sua casa, onde passei a noite mais incrível da minha vida. Hoje, estamos casados.

Desde aquele dia, sempre que minha mãe manda eu levar um casaco quando saio, eu levo, sem contestar.

pelo menos ali


Não aguentava mais. Todos me criticavam por eu ser diferente. Desde pequeno meus pais me educaram muito bem. Ensinaram-me que beber e fumar fazia mal, e por isso, nunca o fiz. Ensinaram-me a ter respeito pelos outros, por mais que não os conheça, e isso eu sempre tive. Ensinaram-me a não ter preconceito. A pedir por favor. A dizer obrigado. Mas amar, ninguém ensina. Isso é algo que se aprende ao longo da vida, sozinho. Só se aprende amando. Sentindo aquela maravilhosa sensação que é estar ao lado da pessoa amada. Receber um beijo, um abraço dela. Olhar para ela, mesmo que ela esteja dormindo. A gente não escolhe por quem vai se apaixonar, e eu acabei me apaixonando pelo meu melhor amigo. No início, preferimos viver um romance escondido, com medo. Não do preconceito que enfrentaríamos, afinal sabíamos que esse tipo de sentimento vem de pessoas ignorantes, mas de não saber reagir a ele. Enfim, depois de muito tempo juntos, eu cansei. Cansei de ter que ver ele por poucas horas, só para que ninguém descobrisse a gente. Cansei de não poder chamar ele de amor na frente dos outros. Amar é um sentimento maravilhoso, e não é porque amamos alguém de mesmo sexo que não devemos demonstrar e aproveitar. Resolvemos então começar contando aos nossos pais, afinal, acreditávamos que eles nos apoiariam. Estávamos enganados. Quer dizer, em parte. Os pais deles aceitaram na boa, nos incentivaram. Disseram que o que importava era ver o filho deles feliz. Assim, criei mais confiança para contar aos meus. Mas de nada adiantou. Eles não acreditaram, acharam que era algum tipo de brincadeira. Disse que aquilo era um absurdo, que homem foi feito para amar mulher. Queriam me proibir de o ver. Eu não conseguia escutar aquilo sem chorar. Não eram lágrimas de tristeza, e sim de raiva. Como alguém pode tentar estragar um amor só porque ele não é da forma que a sociedade estabeleceu como padrão? Comecei a ficar mais distante da minha família, já que o ódio estava tomando conta de mim. Numa tarde minha mãe entrou em meu quarto para conversar comigo.
- Filho, entende. Foi uma surpresa para nós. Não era isso que a gente esperava... Você podia tentar ter um relacionamento com uma menina né? Sempre gostou disso. A Ju, ela te adora. A Fernanda tamb
ém...
-Mãe!
Você nunca mudará o que aconteceu! Eu amo ele, eu quero namorar ele, é com ele que quero viver. Vocês aceitando isso ou não.
Ela saiu do quarto, com lágrimas nos olhos.

Para mim já havia chegado no limite. Eu queria viver com ele, e em casa isso não seria possível. Então, naquela mesma tarde, resolvi sair de casa, sem que meus pais vissem. Subi para o porão e fugi pela
janela. Desci o telhado, tentando não fazer barulho. Peguei um ônibus e fui para a casa dele. Seus pais me receberam super bem, e conversaram comigo. Tentaram fazer eu entender meus pais, mas nada que ninguém me falasse iria me fazer aceitar a insatisfação deles. Corri para o quarto dele, e o abracei e beijei muito. Finalmente poderíamos se amar sem receber críticas, sem sermos impedidos. Pelo menos ali, naquele quarto, naquela casa isso seria possível.
Essa hora meus pais devem estar percebendo que não estou em casa, mas é tarde demais para eu perdoar eles e volta
r. Assim que der, trago minhas coisas para cá, para viver com ele, com a pessoa que eu amo.
(48ª edição musical e 48ª edição visual - Projeto Bloínquês)
(3º lugar: edição musical - nota 9,83 - Criatividade: 10 Ortografia: 9,6 Tema: 9,9)

para

Mãe,
acho que nunca consegui te dizer exatamente o que eu sinto por você, o quanto eu te admiro, e o quanto você é especial para mim. Por mais que a gente brigue, e ás vezes você ache que eu não goste de você, o meu sentimento por você é imenso. Sabe mãe, acho que não tenho muito o que dizer, afinal nenhuma palavra se compara ao que eu sinto. Só o que eu queria que você soubesse é que quando crescer quero ser igual a você. Todos os nãos que você me deu eu vou dar aos meus filhos. Todas às vezes que não deixou eu sair, que não deixou eu comer doce, que disse para eu levar casaco. Tudo. Eu quero ser como você foi para mim, a pessoa mais incrível do universo. Eu quero que meus filhos se orgulhem de mim assim como eu me orgulho de você.
Beijos da filha que te ama demais
(
23ª edição cartas: ao meu ídolo - Projeto Bloínques)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

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Às vezes na vida tomamos decisões erradas, mas com certeza quando a tomamos achávamos que estávamos fazendo a coisa certa. Durante um tempo me senti bem com a decisão que estava tomando, mas depois veio o arrependimento. A vontade de voltar atrás e fazer diferente. A vontade de chorar, a vontade de não ter feito o que fiz. Mas erros são normais na vida, o importante é errar tentando acertar, como eu fiz. Agora, o que me resta é tentar lutar para reparar o erro, e é isso que eu farei. Não ficarei parada. Não descansarei até alguém me provar que não há mais chances.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

se for um sonho

Fazia três meses que havíamos descoberto a minha doença. Era algo raro, nem me lembro direito o nome. Só me lembro que tive que ficar no hospital durante muito tempo. Era algo entediante, já que só o que eu tinha para fazer era ver televisão, ouvir rádio, ler jornal e fazer minha revistinha de palavras cruzadas. Havia tempos que não via meus amigos, que não jogava bola, que não pulava corda. Estava começando a entrar em depressão, achava que ninguém gostava de mim, afinal não recebia nenhuma visita. Mais tarde fui descobrir que era proibido, mas que todos os meus amigos sempre ligavam para o hospital para saber o meu estado. Alguns ficavam ali na porta, sentados, só para receber alguma notícia sobre o grau da minha doença, para saber se eu conseguiria sobreviver. Enfim, o que aconteceu foi que minha mãe chegou para mim, um mês após a minha longa estadia naquele quarto branco e depressivo, e disse que a doença estava piorando, que só se acontecesse um milagre eu conseguiria ficar viva sem sequelas. Por mais que ela estivesse contando-me isso da maneira mais carinhosa, mais gentil possível, suas palavras rasgaram meu peito. Berrei, chorei, e quase me matei, afinal, só estaria antecipando a minha morte.

Troquei de quarto, e passei por diversar cirurgias logo após a minha tentativa de suicídio. Fiquei no soro durante muito tempo, já que me recusava a ingerir qualquer tipo de alimento sólido ou líquido. Eu não queria mais dar trabalho para ninguém, não queria que as pessoas tivessem pena de mim. Eu queria morrer.

Até que mais um mês se passou, e minha mãe entrou no quarto novamente, com a mesma expressão de sempre. Para mim, ela estava vindo se despedir, eu iria morrer, a doença havia tomado conta de mim. Ao invés disso, ela disse:"Filha, você está curada!". O sorriso em seus lábios tocou meu coração, mas eu não conseguia acreditar. "Tive uma conversa com o doutor, e ele me contou.", disse ela, com a expressão feliz, porém exausta, afinal, ela não saíra do meu lado nenhum minuto. "Você tem certeza que foi real? Pode ter sido apenas um sonho. Mãe, o doutor disse isso mesmo? Eu vou poder sair desse quarto, jogar bola, viver novamente?". Ficamos ali, juntas, comemorando, até que finalmente eu acordei. Tudo não havia passado de um sonho meu. É, não tinha jeito, eu iria morrer.

Na manhã seguinte eu já estava preparando em minha mente todo o discurso que iria dizer pra minha mãe, me despedindo, agradecendo. De repente, uma grande batida na porta me tirou de meus pensamentos. Entraram todos os meus amigos com balões, balas, bolos, chocolates. Todos eles comemoravam, e em seguida entrou o médico com minha mãe. Eles me disseram que eu estava curada, e que em poucos dias eu poderia voltar pra casa. A minha felicidade foi imensa, não tenho nem palavras para explicá-la.

Hoje, já mais velha, trabalhando como médica nesse hospital, curando pessoas que acreditavam que a vida estava no fim, assim com um dia eu acreditei, continuo sem saber se estou vivendo num sonho, ou na minha própria vida real. Se me curei de fato, ou se a qualquer momento vou acordar naquela cama de hospital. Eu continuo sem saber, mas vou vivendo. Se for um sonho, que seja o mais belo de todos antes de minha morte.

(45ª edição conto/história- Projeto Bloínquês - 2º lugar: – 9,16)

domingo, 12 de dezembro de 2010

conforme o prometido


Eu e minha irmã sempre fomos muito unidas. Sempre fomos muito próximas, já que temos o mesmo grupo de amigos, os mesmos programas, estudamos na mesma escola. Minha irmã é a pessoa em quem eu mais confio e a pessoa que mais amo nesse mundo. Quando acontece alguma coisa comigo, ela é a primeira que eu tenho vontade de dizer. Aliás, ela é quem eu mais desejo que esteja ao meu lado em todos os momentos.
Por sermos gêmeas, gostamos de fazer aqueles tipos de brincadeiras que só nós, gêmeos, podemos fazer. Já fiz prova pra ela, quando ela não sabia nada da matéria. Ela já levou advertência em meu lugar, quando eu levaria uma suspensão e meses de castigo se ela não tivesse feito isso por mim. Enfim, sempre que aparece uma oportunidade, nós gostamos de ajudar uma a outra, ou apenas fazemos para brincar. A única coisa que ainda não havíamos feito foi enganar o namorado da outra, afinal, nunca namoramos até alguns meses atrás.
Em Maio desse ano, minha irmã começou a namorar, e nossos amigos sempre insistiram muito para que a gente tentasse enganar seu namorado. Eu nunca fui muito à favor, mas certo dia ela resolveu topar e eu entrei na brincadeira também. Passamos uma tarde super romântica juntos, e claro, dando muitos beijos e carinho um ao outro. No dia seguinte contamos tudo a ele, e a minha irmã e ele riram demais. Ele, em nenhum momento desconfiou de nada. Todos adoraram, riram, se divertiram, menos eu. Para mim, aquilo foi além de uma simples brincadeira. Eu havia me apaixonado. Por mais que tivesse sido rápido demais, eu não tinha culpa porque a gente nunca sabe de quem vai gostar. Eu me vi no fundo do poço, afinal, a minha melhor amiga, aquela que eu queria ir correndo e explicar a situação, chorar em seus ombros, pedir um abraço, era a minha própria irmã. Eu estava perdida.
Depois de dois meses guardando a dor só pra mim, eu não suportei mais. Aluguei um quarto num bairro pobre, afinal era o único lugar que conseguia pagar com a minha mesada. Antes de sair de casa escrevi-lhe uma carta, explicando o porque de eu ter saido de casa assim, de repente e escondido de todo mundo e pedi que ela não contasse a ninguém onde eu estava, e a deixei em cima de sua cama.
Na manhã seguinte, no quarto alugado, acordei com a campainha tocando. Era ela. "Terminei com ele", ela disse. Eu insisti que ela fosse corrigir aquele terrível erro que havia cometido. Insisti que fosse atrás dele, afinal, ela o amava. "Eu não amo ninguém mais do que eu amo você. Agora vamos ficar aqui juntas, chorando por ele. Tristes, mas juntas, conforme eu te prometi que estaremos para sempre", disse ela em lágrimas. Eu não tinha nem palavras para dizer. Nos abraçamos e passamos o resto do dia ali, chorando, mas juntas.
(47ª edição musical - projeto bloínquês - 2º lugar - nota:9,9)

o amor realmente é cego


Sempre estive de olho naquela menina, que havia me encantado apenas com seu sorriso meigo e seus olhos brilhantes. Ela não era aquele tipo que gostava de chamar a atenção, e acho que isso só fez aumentar o que eu sentia por ela. O sentimento era uma mistura de desejo, amor, paixão. Era algo que a cada dia que passava mais aumentava, mas tinha que guardá-lo para mim. A minha vontade era de berrar para todo o mundo, berrar para ela, mas como, se a gente nem se falava? Como, se nem meu nome ela sabia?
Início de ano, tive a melhor notícia que poderia ter tido no primeiro dia de aula. Seria da turma dela. Ao longo do ano começou a surgir uma amizade entre nós, e algo forte foi se formando. Meu medo é que ela me visse apenas como um amigo para sempre, mas mais próximo dela, seria mais fácil tentar algo. O ano foi passando, e resolvi que não podia mais esperar. No dia dos namorado, fui até a sua casa com um buquê de rosas amarelas, suas favoritas, uma caixa de bombom com recheio de avelã, seus prediletos, e com uma música que eu havia escrito. Tudo que ela sempre me dizia que tinha o sonho de receber. Tudo que ela dizia que a faria ficar encantada por alguém, caso este lhe fizesse o que eu estava indo fazer. Toquei a campainha, e ela abriu a porta. Cantei a música, lhe entreguei os presentes e fiz a famosa pergunta: "quer namorar comigo?". Ela ficou ali, parada, sem reação, sem me dar uma resposta. Já estava virando as costas, quando ela me beijou. Que beijo. Que sensação. Que felicidade. Eu era o homem mais feliz do mundo.
Ficamos juntos um pouco, mas tive que ir embora. Mal conseguia manter os pés nos pedais da bicicleta, tamanha era a minha felicidade.
Infelizmente, aquela teoria de que o amor é cego estava certa. O meu coração batia tanto, o meu sorriso era tão grande, meus olhos brilhavam como estrelas, e eu não percebi que o sinal estava vermelho. Eu estava cego, e não vi aquele carro vindo em minha direção.
Hoje estou aqui, deitado nessa cama de hospital, rezando todos os dias para que eu consiga sair bem dessa, e que então, finalmente consiga viver a história de amor com a qual eu sempre sonhei. O que me dá forças para continuar a viver é acordar todos os dias nessa cama, abrir os olhos e ver o rosto do meu amor, que não saiu do meu lado por nenhum minuto.
(47ª edição visual - Projeto Bloínquês - 4o lugar - nota:9,5)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

primeiro ato


Estava me preparando para aquele momento havia tempos. Finalmente beijaria ele. Ele queria também, mas parece que estava fazendo algum tipo de jogo, de charme, não sei. Sempre que o beijo ia aocntecer, algo nos impedia. Dessa vez, tudo parecia perfeito. Parecia que tudo ia dar certo. Mas como sempre, eu parecia estar enganada. Quando sua boca estava se aproximando da minha, Joe veio na direção dele, com um pedaço de madeira em suas mãos. Seu olhar era de ódio, parecia que queria matar ele. Eu não tinha culpa de amá-lo. Sei que Joe me queria assim como eu queria ele, mas eu não mandava em meu coração. Eu não ia deixar Joe estragar tudo.
Aquela festa à fantasia estava sendo preparada por nós, desde o ínicio do ano, e eu sabia que seria ali. Nada me impediria de beijá-lo. Nem mesmo nosso amigo, que dizia ter anormalidade, que dizia que era bom a gente não mexer com ele. Eu poderia morrer com aquele pedaço de madeira enfiado em mim, mas antes, beijaria o amor da minha vida.

As cortinas se fecharam, e não parava de ouvir aplausos. Fim do primeiro ato.
Atrás da cortina, todos nos abraçávamos, pois não imaginávamos que a recepção do público seria tão boa. Fomos ao camarim nos trocar, retocar a maquiagem, o cabelo. A peça tinha que continuar.
(46ª edição visual - Projeto Bloínquês - 2o lugar - Nota: 9.7)