sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

o dia


Desde pequena eu sonhava com o dia do meu casamento. Imaginava a minha entrada, com o vestido dos sonhos, jóias lindas e meu cabelo maravilhoso. O buquê seria com rosas brancas, as minhas favoritas. Todos os meus amigos, a minha família e a família dele estariam ali, nos olhando, se emocionando, se encantando. Ele seria o amor da minha vida, o pai dos meus filhos, o avô dos meus netos. Ele seria o homem com o qual e sempre havia sonhado. E esse dia finalmente chegou. Eu estava lá, na limousine, seguindo para o casamento. Antes daquele momento, eu havia passado horas no salão. Fiz o cabelo, pintei as unhas, fiquei na banheira. Fiz massagem e hidratação. Tive o dia de princesa, quer dizer, o dia de noiva, que não deixa de ser como o de uma princesa. O nervosismo aumentava a cada hora que passava. E finalmente aquele momento tinha chegado. A limousine chegou em frente ao salão, mas eu não consegui deixá-la. O motorista abriu a porta e eu permaneci ali dentro. Será que eu estava fazendo a coisa certa? Será que estávamos nos precipitando? Meu pai deixou o carro, e estendeu-me sua mão, para me tirar dali. Após um instante, segurei-a firme, e levantei, ainda indecisa, preocupada, com medo. Ele disse-me: "Tudo vai dar certo", e beijou minha testa.
Quando a porta do salão se abriu, eu vi todos me olhando. Inclusive ele, e ao ver aquele sorriso em seu rosto, eu tive certeza de que estava fazendo a coisa certa.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

ansiedade


Finalmente eu ia fazer os meus tão sonhados dezoito anos. Estava contando os dias para que meu aniversário chegasse. Presentes, festa, comemorações. Todo ano meus pais acordavam-me cantando parabéns e carregando ou uma cesta de café-da-manhã, ou um bolo escrito parabéns. Depois de acordar assim, almoçava com a família e jantava com os amigos. Ou ao contrário. Não importava. O que importava era ter as pessoas que amo perto de mim no dia mais especial do ano. O de dezoito seria mais especial ainda, afinal, todos dizem que é a melhor idade. Mas nesse ano foi diferente.
Acordei e desci para o quarto dos meus pais. Eles não estavam em casa. Nem eles, nem meus irmão. Imaginei que eles haviam saido para comprar um bolo, mas depois três horas de espera, sentada sozinha na cozinha, eles chegaram. Sem nada nas mãos.

-Ah, filha, fomos até a casa da sua avó. Você estava dormindo, preferi não acordá-la. Bom dia!
Foi só isso que minha mãe disse. Meus irmãos e meus pais também passaram direto por mim. Não podia ser. Eles estavam agindo como se aquele dia fosse um dia qualquer, e não era.
Subi e me tranquei no quarto. Não queria ver ninguém. Não havia recebido nenhuma ligação. Nem da minha família, nem dos meus amigos. Como as pessoas que eu mais amava haviam esquecido dessa data tão especial, pelo menos para mim?
Resolvi não ficar trancada em casa. Não no dia do meu aniversário. Segui até a minha lanchonete favorita, e pedi um chocolate quente com chantilly.

-Por favor, a senhora poderia colocar uma vela sobre isso? - perguntei à garçonete. Ela colocou, e trouxe novamente a minha mesa. Cantei parabéns baixinho. Estava com vergonha. Triste. Desapontada. Apaguei as velas e pedi apenas uma coisa. Que isso tudo aquilo fosse um pesadelo. Mas meu pedido não se realizou. Cheguei em casa, e estavam todos realizando suas tarefas. Meus irmãos estudando, mamãe fazendo o almoço e papai mandava uns emails. Subi para o quarto e dormi. Não queria ver ninguém. Queria que aquele dia passasse logo. O dia que eu aguardei durante tanto tempo acabou sendo o pior dia da minha vida.

No dia seguinte acordei com todos eles ao meu redor. Uma cesta de café igual eu nunca tinha visto antes. Um bolo enorme e lindo. Balões e presentes. Eu não estava entendendo nada. O meu aniversário já tinha passado. Hoje já era dia 17 de fevereiro, e não 16. Recebi tudo aquilo com alegria, porém estava muito confusa. Pedi, depois dos parabéns, que me deixassem sozinha por um segundo. Corri até o calendário, para ver se eu estava pirando.
É, acho que a minha ansiedade era tanta que eu acabei marcando o meu próprio aniversário no dia errado. Era, de fato dia 16 de fevereiro. Naquele dia sim eu completava os meus dezoito anos.

domingo, 19 de dezembro de 2010

o homem da minha vida


Ser teimosa às vezes é ruim. Mas nem sempre.
Eu tinha dezesseis anos quando estava na praia com minha família, e o mar estava meio agitado. As ondas eram grandes, estava com correnteza. Nada propício para um mergulho que passasse da borda. Mas eu só gostava de ir à praia para mergulhar. Não gostava de ficar naquele calor, na areia. Ao me ver levantando e indo em direção ao mar, mamãe disse para eu voltar e sentar. Disse que estava perigoso, que até os salva-vidas estavam dizendo que era melhor não entrar no mar. Mas, como sempre, eu fui teimosa, e continuei meu caminho.
Assim que a água tocou meus pés, tive vontade de virar-me e chamar a todos. A água estava maravilhosa. Combinando com aquele clima de verão. Nada seria mais gostoso do que dar um mergulho naquele mar. Nada. E era isso que eu pensava, até chegar no fundo, onde não conseguia mais alcançar o fundo com meus pés. As ondas, de fato estavam maiores do que o normal, e a água me levava para longe, mas nada que uma boa natação não resolvesse. Resolvi então fechar os olhos e boiar. Péssima ideia.
Acordei na areia, sendo socorrida por um salva-vidas que apertava meu peito. Abri os olhos devagar, e minha família estava toda ao meu redor. Quando acordei, só o que consegui escutar foram berros. Acho que era minha mãe comemorando que eu não havia morrido. O homem que salvou minha vida pediu então que as pessoas se afastassem e aos poucos me ajudou a levantar. Acho que ele era médico, afinal, tinha umas mãos delicadas, que haviam evitado a minha morte. Deu-me seu telefone, e disse que qualquer coisa eu podia ligar. É, eu estava certa, ele era médico.

Depois daquele dia minha mãe pediu que eu não saisse de casa até que estivesse totalmente curada. Já que não podia sair de casa e não tinha muito o que fazer, liguei algumas vezes para ele, para agradecer, e acabou que ficamos amigos, e mais tarde ele convidou-me para ir ao seu escritório, para verificar como estava minha saúde. A consulta foi estendida até sua casa, onde passei a noite mais incrível da minha vida. Hoje, estamos casados.

Desde aquele dia, sempre que minha mãe manda eu levar um casaco quando saio, eu levo, sem contestar.

pelo menos ali


Não aguentava mais. Todos me criticavam por eu ser diferente. Desde pequeno meus pais me educaram muito bem. Ensinaram-me que beber e fumar fazia mal, e por isso, nunca o fiz. Ensinaram-me a ter respeito pelos outros, por mais que não os conheça, e isso eu sempre tive. Ensinaram-me a não ter preconceito. A pedir por favor. A dizer obrigado. Mas amar, ninguém ensina. Isso é algo que se aprende ao longo da vida, sozinho. Só se aprende amando. Sentindo aquela maravilhosa sensação que é estar ao lado da pessoa amada. Receber um beijo, um abraço dela. Olhar para ela, mesmo que ela esteja dormindo. A gente não escolhe por quem vai se apaixonar, e eu acabei me apaixonando pelo meu melhor amigo. No início, preferimos viver um romance escondido, com medo. Não do preconceito que enfrentaríamos, afinal sabíamos que esse tipo de sentimento vem de pessoas ignorantes, mas de não saber reagir a ele. Enfim, depois de muito tempo juntos, eu cansei. Cansei de ter que ver ele por poucas horas, só para que ninguém descobrisse a gente. Cansei de não poder chamar ele de amor na frente dos outros. Amar é um sentimento maravilhoso, e não é porque amamos alguém de mesmo sexo que não devemos demonstrar e aproveitar. Resolvemos então começar contando aos nossos pais, afinal, acreditávamos que eles nos apoiariam. Estávamos enganados. Quer dizer, em parte. Os pais deles aceitaram na boa, nos incentivaram. Disseram que o que importava era ver o filho deles feliz. Assim, criei mais confiança para contar aos meus. Mas de nada adiantou. Eles não acreditaram, acharam que era algum tipo de brincadeira. Disse que aquilo era um absurdo, que homem foi feito para amar mulher. Queriam me proibir de o ver. Eu não conseguia escutar aquilo sem chorar. Não eram lágrimas de tristeza, e sim de raiva. Como alguém pode tentar estragar um amor só porque ele não é da forma que a sociedade estabeleceu como padrão? Comecei a ficar mais distante da minha família, já que o ódio estava tomando conta de mim. Numa tarde minha mãe entrou em meu quarto para conversar comigo.
- Filho, entende. Foi uma surpresa para nós. Não era isso que a gente esperava... Você podia tentar ter um relacionamento com uma menina né? Sempre gostou disso. A Ju, ela te adora. A Fernanda tamb
ém...
-Mãe!
Você nunca mudará o que aconteceu! Eu amo ele, eu quero namorar ele, é com ele que quero viver. Vocês aceitando isso ou não.
Ela saiu do quarto, com lágrimas nos olhos.

Para mim já havia chegado no limite. Eu queria viver com ele, e em casa isso não seria possível. Então, naquela mesma tarde, resolvi sair de casa, sem que meus pais vissem. Subi para o porão e fugi pela
janela. Desci o telhado, tentando não fazer barulho. Peguei um ônibus e fui para a casa dele. Seus pais me receberam super bem, e conversaram comigo. Tentaram fazer eu entender meus pais, mas nada que ninguém me falasse iria me fazer aceitar a insatisfação deles. Corri para o quarto dele, e o abracei e beijei muito. Finalmente poderíamos se amar sem receber críticas, sem sermos impedidos. Pelo menos ali, naquele quarto, naquela casa isso seria possível.
Essa hora meus pais devem estar percebendo que não estou em casa, mas é tarde demais para eu perdoar eles e volta
r. Assim que der, trago minhas coisas para cá, para viver com ele, com a pessoa que eu amo.
(48ª edição musical e 48ª edição visual - Projeto Bloínquês)
(3º lugar: edição musical - nota 9,83 - Criatividade: 10 Ortografia: 9,6 Tema: 9,9)

para

Mãe,
acho que nunca consegui te dizer exatamente o que eu sinto por você, o quanto eu te admiro, e o quanto você é especial para mim. Por mais que a gente brigue, e ás vezes você ache que eu não goste de você, o meu sentimento por você é imenso. Sabe mãe, acho que não tenho muito o que dizer, afinal nenhuma palavra se compara ao que eu sinto. Só o que eu queria que você soubesse é que quando crescer quero ser igual a você. Todos os nãos que você me deu eu vou dar aos meus filhos. Todas às vezes que não deixou eu sair, que não deixou eu comer doce, que disse para eu levar casaco. Tudo. Eu quero ser como você foi para mim, a pessoa mais incrível do universo. Eu quero que meus filhos se orgulhem de mim assim como eu me orgulho de você.
Beijos da filha que te ama demais
(
23ª edição cartas: ao meu ídolo - Projeto Bloínques)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

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Às vezes na vida tomamos decisões erradas, mas com certeza quando a tomamos achávamos que estávamos fazendo a coisa certa. Durante um tempo me senti bem com a decisão que estava tomando, mas depois veio o arrependimento. A vontade de voltar atrás e fazer diferente. A vontade de chorar, a vontade de não ter feito o que fiz. Mas erros são normais na vida, o importante é errar tentando acertar, como eu fiz. Agora, o que me resta é tentar lutar para reparar o erro, e é isso que eu farei. Não ficarei parada. Não descansarei até alguém me provar que não há mais chances.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

se for um sonho

Fazia três meses que havíamos descoberto a minha doença. Era algo raro, nem me lembro direito o nome. Só me lembro que tive que ficar no hospital durante muito tempo. Era algo entediante, já que só o que eu tinha para fazer era ver televisão, ouvir rádio, ler jornal e fazer minha revistinha de palavras cruzadas. Havia tempos que não via meus amigos, que não jogava bola, que não pulava corda. Estava começando a entrar em depressão, achava que ninguém gostava de mim, afinal não recebia nenhuma visita. Mais tarde fui descobrir que era proibido, mas que todos os meus amigos sempre ligavam para o hospital para saber o meu estado. Alguns ficavam ali na porta, sentados, só para receber alguma notícia sobre o grau da minha doença, para saber se eu conseguiria sobreviver. Enfim, o que aconteceu foi que minha mãe chegou para mim, um mês após a minha longa estadia naquele quarto branco e depressivo, e disse que a doença estava piorando, que só se acontecesse um milagre eu conseguiria ficar viva sem sequelas. Por mais que ela estivesse contando-me isso da maneira mais carinhosa, mais gentil possível, suas palavras rasgaram meu peito. Berrei, chorei, e quase me matei, afinal, só estaria antecipando a minha morte.

Troquei de quarto, e passei por diversar cirurgias logo após a minha tentativa de suicídio. Fiquei no soro durante muito tempo, já que me recusava a ingerir qualquer tipo de alimento sólido ou líquido. Eu não queria mais dar trabalho para ninguém, não queria que as pessoas tivessem pena de mim. Eu queria morrer.

Até que mais um mês se passou, e minha mãe entrou no quarto novamente, com a mesma expressão de sempre. Para mim, ela estava vindo se despedir, eu iria morrer, a doença havia tomado conta de mim. Ao invés disso, ela disse:"Filha, você está curada!". O sorriso em seus lábios tocou meu coração, mas eu não conseguia acreditar. "Tive uma conversa com o doutor, e ele me contou.", disse ela, com a expressão feliz, porém exausta, afinal, ela não saíra do meu lado nenhum minuto. "Você tem certeza que foi real? Pode ter sido apenas um sonho. Mãe, o doutor disse isso mesmo? Eu vou poder sair desse quarto, jogar bola, viver novamente?". Ficamos ali, juntas, comemorando, até que finalmente eu acordei. Tudo não havia passado de um sonho meu. É, não tinha jeito, eu iria morrer.

Na manhã seguinte eu já estava preparando em minha mente todo o discurso que iria dizer pra minha mãe, me despedindo, agradecendo. De repente, uma grande batida na porta me tirou de meus pensamentos. Entraram todos os meus amigos com balões, balas, bolos, chocolates. Todos eles comemoravam, e em seguida entrou o médico com minha mãe. Eles me disseram que eu estava curada, e que em poucos dias eu poderia voltar pra casa. A minha felicidade foi imensa, não tenho nem palavras para explicá-la.

Hoje, já mais velha, trabalhando como médica nesse hospital, curando pessoas que acreditavam que a vida estava no fim, assim com um dia eu acreditei, continuo sem saber se estou vivendo num sonho, ou na minha própria vida real. Se me curei de fato, ou se a qualquer momento vou acordar naquela cama de hospital. Eu continuo sem saber, mas vou vivendo. Se for um sonho, que seja o mais belo de todos antes de minha morte.

(45ª edição conto/história- Projeto Bloínquês - 2º lugar: – 9,16)